quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Mundo é Plano

O Livro
- Título: O Mundo é Plano
- Conteúdo: Uma análise do mundo globalizado no século XXI.
- Autor: Thomas Friedman
- Editora: Objetiva

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Por que a Tribo Recomenda
Minha história com esse livro é complicada. Ouvi falar nele pela primeira vez em 2005, logo após a sua publicação, mas acabei só comprando um exemplar em 2006, ainda no aeroporto, a caminho de uma viagem para a Alemanha. Só que perdi o livro no avião, e só acabei comprando ele novamente em 2007, quando finalmente o li. A persistência valeu à pena. "O Mundo é Plano" é leitura obrigatória para quem, como eu, é fascinado pela nova ordem das coisas na virada do século XXI.

Thomas Friedman é um jornalista que durante muitos anos dedicou-se ao tema da globalização. Nesse livro, ele analisa com grande profundidade a conjuntura atual do planeta, justificando porque, na opinião dele, o mundo agora é plano. Obviamente, ele usa esse termo para descrever o que temos vivenciado no dia-a-dia: o mundo parece cada vez menor, dadas as facilidades que temos para acessar recursos e pessoas que a pouco tempo atrás pareceriam inatingíveis. Friedman cobre basicamente as causas desse fenômeno, seus efeitos, e o que podemos esperar do futuro.


Como o Mundo Tornou-se Plano

Friedman começa o livro traçando um histórico da globalização. A primeira onda de globalização considerada por ele teria iniciado com as grandes navegações, tal como a aventura de Cristóvão Colombo em 1492. As nações do velho mundo buscando novos territórios para incrementar suas riquezas naturais. A segunda onda de globalização seria a expansão das companhias multinacionais, ocorrida entre 1800 e 2000. As empresas buscando novos mercados e novas forças de trabalho. E a terceira onda seria a que estamos vivendo agora, na virada do século. Essa terceira globalização estaria ocorrendo no nível dos indivíduos, que cada vez mais colaboram ou competem em igual nível com qualquer outro indivíduo no planeta.

Nesse sentido, Friedman tenta identificar as 10 forças causadoras da 3a globalização, ou as forças que fizeram o mundo "ficar plano". Seriam elas:

1 - A queda do muro de Berlim e o surgimento do Windows - Em 1989, com a queda do muro de Berlim, vimos uma série de economias passando a ser governadas de baixo para cima. Seja pela instituição de um regime democrático, como no leste europeu, seja pela abertura de mercado em países como Índia e Brasil, profundas mudanças políticas e econômicas sucederam-se ao redor do planeta. Quase ao mesmo tempo, em 1990, era lançado o Windows 3.0, que viria a ser o passo mais pragmático na direção da popularização do PC.

2 - Internet e WWW - Em meados da década de 90, com a popularização da Internet e o surgimento do browser e da World Wide Web, o ser-humano deu uma prova aos analistas mais conservadores de que os hábitos podem mudar rapidamente e drasticamente em função da tecnologia, desde que haja um apelo para isso. E o apelo era conectar-se com outras pessoas, uma necessidade natural de qualquer um de nós. O que sucedeu essas transformações foi o "boom" da Internet e o estouro da bolha ".com", que teve um lado profundamente positivo: o investimento em massa aplicado em infraestrutura (fibra-óptica, etc) fez os custos de comunicação ao redor do planeta cair para quase zero.

3 - Software e Workflow - Com o advento da Internet e do e-mail, as empresas mudaram totalmente a maneira como funcionavam. Formulários em papel, protocolos, faxes entre departamentos, tudo foi sendo substituído por e-mail e colaboração baseada em software. Várias camadas de software foram sendo desenvolvidas e as empresas tornaram-se capazes de colaborar entre si em tempo real.

4 - "Uploading" - Com o tempo, o foco da Internet moveu-se de um lugar onde as pessoas vão para buscar informações, para um lugar onde as pessoas vão para prover informações. Comunidades, opensource software, blogs, Wikipedia, o público da Internet hoje é muito mais um participante ativo do que um mero espectador.

5 - "Outsourcing" - A Índia é o maior exemplo desse fenômeno. Tudo começou anos atrás com políticas educacionais rígidas que ajudaram a criar vários centros técnicos e universitários de excelência, formando enormes quantidades de trabalhadores qualificados. Depois veio o massivo investimento em infraestrutura decorrente do "boom" da Internet, que fez com que trabalhar em Bangalore fosse quase o mesmo que trabalhar em San Jose, na California. Ao mesmo tempo, o "bug do milênio" levou várias empresas do mundo todo a usar a mão de obra barata indiana para trabalhos de TI repetitivos. E o resto é história, os indianos foram muito hábeis em usar essas oportunidades para abocanhar uma enorme fatia do mercado do outsourcing mundial, ficando inclusive com boa parte do "filé". Vários outros países seguiram a mesma linha.

6 - "Offshoring" - Enquanto no "outsourcing" você quebra o seu processo de negócio em partes e terceiriza o que não é seu foco, no "offshoring" você move seu negócio inteiro (como uma fábrica) para outro país onde as condições econômicas sejam mais favoráveis (mão-de-obra, impostos, matéria-prima, etc). A China, ao associar-se à Organização Mundial do Comércio em 2001 tornou-se o principal destino de "offshoring" no planeta, mudando completamente a realidade existente até então.

7 - "Supply-chaining" - Muitas empresas perceberam nos últimos anos que construir produtos pode não ser um diferencial tão grande (a China e a engenharia reversa de produtos sofisticados como chips eletrônicos provaram isso). Entretanto, criar e gerenciar um processo que "entrega coisas", envolvendo dezenas de fornecedores, distribuidores, operadores, etc, é difícil e não tão facilmente duplicável. Companhias como o Wal-Mart não produzem nada, e ainda assim, por possuírem cadeias de suprimento tão efetivas acabam gerando um valor fabuloso para o consumidor.

8 - "Insourcing" - Empresas como a UPS especializaram-se em desenhar e gerenciar cadeias de suprimento para outras empresas. Grandes companhias como Nike e Toshiba já optaram por focar-se em seus negócios e deixar outras empresas gerenciar o fluxo de seus produtos das fábricas para os armazéns, e para o consumidor. Mas pequenas empresas também passaram a se beneficiar desse tipo de negócio (nunca antes uma empresa de calçados do interior do Brasil poderia ter uma cadeia de suprimento tão eficiente como a da Nike; hoje em dia ela pode).

9 - "In-forming" - Friedman cunhou esse termo para descrever a habilidade que as pessoas têm hoje em dia de criar suas próprias "cadeias de suprimento". Devido ao volume de informações disponível na Web, e devido à facilidade em encontrar esse conteúdo, as pessoas hoje em dia tornaram-se autônomas para definir como, quando e onde seu conhecimento pode ser importante.

10 - Os "Esteróides" - Friedman cunhou esse termo para descrever algumas tecnologias surgidas ou profundamente melhoradas nos últimos anos, as quais ajudaram a catalisar todas as 9 forças anteriores identificadas por ele. Seriam elas: wireless, video-conferência, VoIP, IM / file sharing, computação gráfica, storage e poder computacional.


O Mundo é Plano, e daí?
Após analisar em profundidade as causas que teriam feito o mundo "ficar plano", Friedman faz uma avaliação do contexto atual das nações e das empresas sobre o prisma da globalização. Ele reflete com bastante critério como a globalização impactou e ainda pode impactar os Estados Unidos em particular, e países emergentes. A análise da realidade americana é muito honesta, fala um pouco de coisas mencionadas pelo Dr. Zambol em um post sobre arrogância.

Porém, o exercício mais interessante que ele faz nessa segunda parte do livro é sobre os perfis profissionais necessários nessa realidade e como as empresas devem se comportar no contexto dessa nova globalização. Entre os vários perfis descritos por ele estão alguns que já percebo as empresas procurando, tal como o "colaborador", profissional que possui grande habilidade para tarefas colaborativas; ou o "orquestrador", profissional que não é especialista nem generalista, mas uma soma ponderada das duas coisas, sendo capaz de trabalhar em profundidade com um processo específico, mas igualmente capaz de aprender e coordenar esforços colaborativos em áreas as quais inicialmente não domina. Quanto ao comportamento esperado das empresas, ele menciona a necessidade de estar sempre preparada para mudanças e as novas características das hierarquias, nas quais os profissionais, tendo muito mais informações à disposição, podem ser mais autônomos e executar tarefas cada vez mais estratégicas.

Enfim, por incrível que pareça, dada a velocidade com que novas e fundamentais ferramentas surgem nos dias de hoje, "O Mundo é Plano" já está defasado em muitos casos. Muitas das empresas e cases que ele descreve no livro já não são mais referência. Independente disso, as premissas levantadas por Friedman são muito sólidas, e as principais transformações que moldaram esse mundo que vivemos hoje (e que nos parece tão natural) são muito bem documentadas por ele. Trata-se de um excelente framework para entender a situação que nos encontramos hoje e tentar vislumbrar o que vem pela frente.

Enfim, nos faz lembrar por alguns instantes que escrever uma revisão de livro em um "diário" (blog) sendo acessado por milhares de pessoas mensalmente seria impensável a 10 anos atrás. São as maravilhas da tecnologia e da globalização!!

Boa leitura,
Reggie, the Engineer.
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4 comentários:

Thiago Luiz Torquato disse...

Eu já li o livro e estava aguardando por esse review. O livro é excelente, mas não acho que a análise dele sobre a situação americana seja tão honesta assim. Em alguns trechos ele puxa muito a sardinha para o lado americano... Abraço.

Reggie, the Engineer disse...

Torquato, estava aguardando o seu comentário, :)

Bom, quando eu falo que a análise foi honesta, digo honesta para os padrões americanos, já que fazer críticas contundentes é quase anti-patriota.

Mas acho realmente que ele expôs alguns fatos que muitos têm receio de admitir na América, e que deixam uma certeza: o horizonte não parece mais tão agradável hoje em dia para eles quando comparado a anos atrás.

Principalmente no capítulo 8 - The Quiet Crisis, ele fala de algumas estatísticas preocupantes, como a queda do número de cientistas, o crescente gap de educação entre os mais pobres, e o fato de muitos países estarem ultrapassando os EUA em investimentos em infraestrutura.

Isso para mim é uma análise bastante honesta, porque é sempre difícil admitir os próprios problemas. Considerando o fato de que o autor é americano, acho que valeu o elogio.

Volte sempre por aqui, abraço.

Reggie, the Engineer

Fabiana Boff disse...

Bem...sobre o livro adorei. Foi recomendado por um professor da faculdade onde estudo para um trabalho, mas acabei lendo ele por completo...acredito q seja uma fonte muito confiável do q está acontecendo no mundo... precisamos ter uma visão ampla para entrarmos neste mundo também...gostei muito...vai me ajudar futuramente...conserteza...

Erick Formaggio disse...

Olá Reggie,

Estou terminando de ler "O Mundo é Plano". Confesso que estou gostando muito. O case da UPS, as histórias que envolvem colaboração e a viagem à Índia do Friedman, deixam bem claro o quanto o mundo está se achatando.

Bem bacana o blog, parabéns!
Erick